quarta-feira, 26 de maio de 2010

Cabral e a vergonha do Brasil.

Em que Estado o governador Sérgio Cabral vive? Com certeza não é o Rio de Janeiro. Pelo menos não o Rio de Janeiro que ele pinta em seus discursos.

O Rio de Janeiro que, segundo ele, está melhorando a passos largos os transportes públicos e reformando as repartições do Estado. O Rio de Janeiro dos discursos de Cabral é aprovado por todos, com exceção de algum “deputadozinho da oposição”, como disse na última segunda-feira, 24/05, em sua infeliz entrevista ao Globo Online.

Realmente este Rio de Janeiro descrito pelo governador não se parece com o Estado em que usuários do Metrô desmaiam dentro de trens superlotados e frequentemente são surpreendidos por panes no sistema. Em que os passageiros se espantam com cogumelos brotando nas saídas de ventilação dos trens, que circulam muitas vezes sem ar refrigerado.

Um Estado em que os usuários da Supervia são chicoteados pelos seguranças da empresa e que correm risco em viagens realizadas em alta velocidade sem o condutor. Isso para não falar nos frequentes acidentes ocorridos nos trilhos da Supervia, inclusive com um descarrilamento recente que feriu mais de 60 pessoas.

Um Estado que se gaba de um bilhete único que é um dos piores do Brasil por deixar de fora do benefício parte considerável dos trabalhadores do Grande Rio, já que vale apenas por duas horas para dois meios de transporte. Isso para citar apenas os serviços lembrados por Cabral.

Um Estado que inaugura, com um ano de atraso e após nove adiamentos, um novo prédio para o seu Instituto Médico Legal (IML), o qual, em menos de sete meses, já está caindo aos pedaços, nas palavras do jornal Extra. Para o Governador, são apenas "defeitinhos". Para o mundo real, e quem nele vive, são problemas da maior gravidade, como declararam o Sindicato dos Peritos do Estado do Rio de Janeiro e o Sindicato dos Médicos.

O governador falou também do Theatro Municipal. Motivo de orgulho de todo o carioca, o maior e mais importante palco do país recebeu o investimento maciço de instituições públicas e privadas para viabilizar uma reforma desejada por todos. A fachada do teatro, já exposta à curiosidade de todos, realmente está linda. É o que queremos, mas se há notícias de problemas ocorridos na obra, elas precisam ser checadas, mesmo que o Governador não queira.

Transparência deveria ser uma bandeira do governador. Mas não. Ele se irrita ao perceber que um deputado quer cumprir a sua missão, quer fiscalizar as ações e verificar a responsabilidade do Governo do Estado no caos dos transportes públicos, na decadência precoce do novo prédio do IML e nos possíveis problemas ocorridos na obra do Municipal.

Pelo que disse, o Governador parece querer uma Alerj domesticada, calada, inerte. Parece querer uma Alerj composta de deputados que sejam fiéis e atentos não a seus eleitores, mas ao desejo de reconhecimento e aplausos do Governador.

(texto amigo anonimo)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Aquecimento Global existe?

O debate sobre clima tomou conta da mídia nos últimos messes,cientistas principalmente dos países do Norte,fazem pesquisas dizendo que a temperatura média do planeta vai aumentar nos próximos 10 anos de 2 a 5 graus centígrados,é isso acarretaria em derretimentos de geleiras e outras catástrofes para a humanidade.
já outros pesquisadores tem uma linha mais "conservadora' sobre o assunto pois estes alegam que não existe de fato aquecimento global terrestre,pois seria impossível,emissões na atmosfera causar mudanças de temperatura.
no meio deste debate sabemos que existe interesses de ambas as partes em afirmar que existe aquecimento da terra e dos que não acreditam,e os veículos de informação de massa são totalmente sem compromisso com seu publico por isso o nosso blog quer saber a sua opinião,se de fato existe ou não aquecimento global.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Nova concessão para a Surpevia!

Nos próximos dias vamos ver o Governador do Estado do Rio de Janeiro assinar mais uma concessão pública, para uma empresa privada prestar, os serviços para a sociedade, ate ai tudo bem, esta seria uma pratica normal desde que o estado foi sucateado, e “vendido para o capital privado”. Mais quando falamos de uma empresa prestadora de serviços no setor de transporte do nosso estado já ficamos com um pé atrás, pois sabemos como esta lógica perversa de financiamento de campanha, lobby interno no governo,e este e um ano eleitoral, influencia nestas escolhas, vide grupos de empresários que detém quase 80% do controle dos transportes públicos de linhas de ônibus na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Mais a concessão que esta em eminência e a da Supervia, que vai explorar os ramais de Saracuruna, Belford Roxo e outros , por mais 25 anos, e ganhara de presente já muitos investimentos do capital estatal, ou seja do governo, que e justo o Estado tem que investir em melhorias para a população,mais o que me intriga neste “negocio”,que uma empresa como a Supervia que presta na minha humilde opinião um péssimo serviço,ganha novamente o direito de explorar estes ramais,e o pior sem nenhuma consulta publica, e avaliação de seus usuários,por isso que repudiamos a renovação desta concessão, pois a população não pode ser escrava de um empresa ou de um grupo com interesses pessoais e mesquinhos por isso pedimos já a revogação de todas as concessões publicas na área dos transportes do nosso Estado.

terça-feira, 23 de março de 2010

Voltamos para ficar!

Depois de um longo tempo de inatividade, estamos voltando a nossa dinâmica de postagens, sempre com o nosso foco de denúncias, informações e debates . Dentro dos próximos dias estaremos trazendo para você nosso leitor artigos da mais alta relevância para o povo da baixada fluminense,e todos que gostam de um veiculo de comunicação, alternativo de boa qualidade e independente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A cidade partida!

Vim direto do aeroporto para o plenário. Estou ainda um pouco tontoporque 12 horas de viagem não é algo simples nem fácil. Mas preparo(...) um relatório de todas as visitas, de todas as reuniões em todasas cidades. Foram 13 cidades diferentes em seis países, em 35 dias.Então, é evidente que tenho bastante trabalho. Em todos os países, asreuniões foram sempre com o Parlamento, com o Governo, na maioria dasvezes com os Ministérios de Relações Exteriores, com a sociedadecivil, com a Academia, com o pensamento de cada país, o que foi muitoimportante. Descobri, por exemplo (...) que na cidade de Colônia, umabela cidade da Alemanha, há um mestrado e uma das teses que estãosendo produzidas lá é sobre as milícias do Rio de Janeiro. A estudanteque está elaborando essa tese, evidentemente veio conversar e disseque a principal fonte de pesquisa era o relatório produzido pelaComissão Parlamentar de Inquérito que investigou as milícias nestaCasa. De alguma forma, são sinais da globalização, também.Em todos os países, explicitando quais eu visitei — Alemanha, Holanda,Espanha, França, Bélgica e Itália — sempre fui muito bem recebido esempre uma grande surpresa para mim, principalmente dos parlamentos decada um deles, do quanto conseguimos aqui, através de uma ComissãoParlamentar de Inquérito, porque não foi fácil enfrentar o crimeorganizado. Esse também é papel do parlamento.Eu quero somar a esta fala de uma prestação de contas inicial quefaço, pois acabei de chegar e sei que devo, é minha obrigação prestarcontas por escrito. Quero dizer o que fui fazer lá, o que foi feito,trazendo todas as reportagens que saíram sobre a nossa visita a esseslugares. Essa deve ser a prática desta Casa.Se nós saímos, se não estávamos aqui trabalhando, se estávamostrabalhando em outro lugar, em outro espaço, a prestação de contas éobrigatória. Deve ser sempre assim: na volta de qualquer viagem, oparlamentar tem que apresentar um relatório para dizer porque estavaausente. E, se não foi a trabalho, então que não receba o seu saláriodaquele mês. É o mínimo de seriedade que a gente exige. Portanto, comocheguei hoje, garanto que até quinta-feira estarei apresentando esserelatório atualizado, mas trago algumas informações imediatas.Quero dizer (...) que no início, até porque eu comecei a visita pelaAlemanha, encontrava uma grande dificuldade pedagógica - e olha que eutenho 19 anos de sala de aula, de magistério, e ainda dou aula, aindaestou em sala de aula - mas tinha uma dificuldade pedagógica muitogrande de fazer com que algumas pessoas, principalmente na Alemanha,compreendessem o fenômeno da milícia. Quando eu dizia, ..., que nãosão paramilitares, porque o ‘efeito Colômbia’, o modelo da Colômbia émuito conhecido na Europa. Só que a nossa milícia é diferente domodelo colombiano: nós não temos paramilitares, eles formam uma forçaque está dentro da Polícia, dentro das forças públicas, não está fora,mas é uma força paralela que não está fora do Estado, que age dentrodo Estado e se utiliza da carteira, se utiliza da arma paraimplementar e organizar o crime.Diante disso, havia alguma dificuldade de compreensão de como épossível acontecer.Quando eu dizia que setores do poder público organizam crime, dominamterritórios e dominam, por exemplo, atividades econômicas, mas nãofazem tráfico de drogas — esta é outra comparação equivocada que fazemcom experiências, por exemplo, do México ou da Colômbia. Não hátráfico de drogas nas milícias, a atividade econômica é outra e é maislucrativa, diga-se de passagem, do que o tráfico. Eu lhes dizia quedominam o transporte alternativo.Aí (...) fazer o povo da Alemanha, por exemplo, entender o quesignifica transporte alternativo, era uma dificuldade muito profunda.E tive de dizer que existe o transporte alternativo porque otransporte público não funciona, porque o transporte público no Rio deJaneiro está entregue nas mãos dos donos de empresa de ônibus, quefinanciam campanhas e depois não são cobrados devidamente das suasobrigações, por isso não permitem, por exemplo, que nosso metrô tenhaalgum nível de dignidade nos serviços oferecidos à população, porqueas relações políticas que pairam sobre o interesse público impedem quenosso transporte coletivo tenha alguma qualidade.Fazer com que essas pessoas entendessem isso, em alguns lugares, eramuito difícil.Fazer com que isso pudesse gerar a idéia de que era o braço econômicodo crime que se alimentava de um Estado que propositalmente nãooferece seus serviços para a população, era mais difícil ainda. Comolhes explicar, por exemplo, que setores do poder público dominam adistribuição de gás em diversas áreas do Rio de Janeiro, em mais de200 áreas do Rio de Janeiro? Como explicar que desviam sinais de TV acabo? E fazem com que isso dê um montante, como, por exemplo, umamilícia investigada por nós e depois comprovada pela investigação daDraco, já tivesse um faturamento de um milhão e meio de euros. E sefizéssemos isso convertido, por mês, vai dar, aproximadamente, cincomilhões de reais.Tudo conseguido, tudo conquistado através das falhas do Estado,através da lacuna deixada pelo Estado na vida dessas pessoas das áreasperiféricas e pobres no Rio de Janeiro.É um Estado que não é para todos; uma cidade que não é para todos, maspara alguns.Essa era uma dificuldade que precisávamos superar na hora deconversarmos sobre o crime organizado dentro do Estado.(...) Não existe crime organizado fora do Estado no mundo inteiro. Ocrime só é organizado quando feito por dentro do Estado. O crime forado Estado existe, mas é um crime desorganizado, é um crimedesarticulado, é um crime que não tem conexões. É um crime feito apartir de um Estado que se apresenta seja qual for, pela sua lacuna noque diz respeito a uma política de direitos, pela lógica da repressão.Mas, evidentemente, crime organizado só existe diante do Estado edentro das máquinas públicas, operado por agente da máquina pública.Não é possível o crime ser organizado fora do Estado. Mesmo esses que,aparentemente, surgem de áreas onde supostamente não temos o Estado, oque não é bem verdade. Nós temos o Estado presente nas favelas,através do braço de controle da Polícia. Nós não temos o Estadopresente na garantia dos direitos, com escola de qualidade, com saúdepública de qualidade, com transporte, com política de empregos. Issonós não temos garantido, mas temos o Estado presente na lógica docontrole, na lógica de guetificação, na criminalização da pobreza.(...) uma provocação propositiva: eu não considero que falte políticade segurança para o Estado. Essa é a política de segurança. Não existeausência do Estado, existe um determinado modelo de Estado para essapopulação, e há falhas.A Polícia do Rio de Janeiro cumpre ordens. A Polícia do Rio de Janeiroé absolutamente vinculada e articulada aos interesses políticos. Foicriada assim há duzentos anos. A Polícia do Rio de Janeiro foi criadapela Família Real quando chegou ao Rio de Janeiro para proteger arealeza dos escravos, dos pobres e dos negros que circulavam pelocentro do Rio.A Polícia continua, numa perspectiva histórica, com uma função muitosemelhante a de proteger a casa grande dos riscos da senzala. É ummodelo de guetificação e de controle da população pobre. Não é umafalha do Estado. Este é o Estado. Não é uma ausência de política. Estaé a política do controle através, única e exclusivamente, darepressão, onde o controle é mais absoluto e moderno, com ocupaçõespoliciais.Vamos viver um momento importante no Rio de Janeiro, que é a chegadada Copa do Mundo e das Olimpíadas. Não só das Olimpíadas, mas da Copado Mundo também. É uma grande oportunidade para que possamos virar umadeterminada página no Rio de Janeiro, que é a página da hipocrisia.Para repactuar a ideia de cidade. Para rediscutir o papel que asfavelas têm no Rio de Janeiro. Para romper com a ideia de que a favelaé sempre um debate de Polícia, marcado pelas sucessivas tragédias. Oué um helicóptero matando, ou é um helicóptero sendo derrubado. Quemnão lembra daquela ação, em Senador Camará, do helicóptero fuzilandotodo mundo? O Deputado Paulo Ramos, à época lembrava que qualquer diaum helicóptero seria derrubado, e agora foi derrubado.São marcas de tragédias que provocam nossa hipócrita amnésia. Umatragédia apaga a outra, e vamos nos esquecendo de tudo. Chacinas emais chacinas, como tivemos na década de 90 e continuamos a ter agora.O que foi o Complexo do Alemão? É preciso romper. Não existe históriado Rio de Janeiro sem a história de suas favelas. Mais de um terço dapopulação do Rio de Janeiro vive nas favelas. O risco para o Rio deJaneiro não é o dia em que a favela descer. Ai do Rio de Janeiro, aidas olimpíadas do Rio de Janeiro se um dia a favela não descer! Porquese, um dia inteiro, todos os moradores da favela não saírem de casa, oque funcionará no Rio de Janeiro? Qual serviço vai funcionar no Rio deJaneiro? Nada funcionará, porque continua sendo as mãos e os pés destaCidade. Mas, equivocadamente insistimos em fazer um discurso decriminalização da pobreza e tratando sempre as favelas como caso depolícia. Um procedimento que cria um aspecto do medo, que provoca aintolerância, e V. Exa. sabe muito bem o quanto este debate éimportante, o quanto o medo é estratégico para uma determinadaconcepção de Estado, que quer provocar, num determinado setor a quemnão lhe deu direitos, a perspectiva do medo da construção do inimigopúblico.Este é o momento em que o Rio de Janeiro tem a chance de fazer umdebate, aberto para o mundo, de repactuação da sua concepção decidade. Não podemos perder essa perspectiva e achar que a saída paraisso é um grande muro na Linha Amarela e na Linha Vermelha, porquevamos passar por ali e o problema estará bem distante: do outro ladodo muro.Um dos lugares que visitei oficialmente pelo Parlamento foi aAlemanha. Uma das referências da concepção de cidade, em Berlim, hoje,é a ausência do muro. Berlim é uma das cidades mais importantes doSéculo XX. É só pensarmos o quanto o Século XX foi marcado pela 1ªGuerra, pela 2ª Guerra, pela ascensão do nazifascismo, no períodoentre guerras, pelo pós-guerra e o papel predominante de Berlim emtodos esses debates, pela queda do muro no final da década de 80.Berlim é protagonista durante todo o Século XX. Toda a concepção deBerlim, em pouco tempo, será indiscutivelmente a principal cidadeeuropéia. Todo o conceito que Berlim desenvolve hoje, de cidade, estácalcado como referência simbólica mais importante o rompimento demuros.Nos restos do muro de Berlim que sobraram, que virou lugar devisitação, tem uma frase, que fotografei e vou mandar de presente parao Governador, dizendo: “Muitos são os muros que ainda precisam serderrubados”. Está escrito num pedaço, que ficou em pé, do muro deBerlim, é principalmente aos muros que provocam a invisibilidade de umsetor dessa população, que gera o preconceito, que gera aintolerância, que gera a ideia de que o Rio está em guerra e que asolução para esta guerra é eliminarmos o inimigo. Não é disso queestamos precisando, porque não fizemos outra coisa, na história daRepública do Rio de Janeiro, que não eliminarmos inimigos eproduzirmos inimigos. Foi isso que a ditadura fez com os subversivos,comunistas e todos aqueles que foram ditos “inimigos da pátria”.E agora? Os “inimigos da pátria” são os que sobraram de uma sociedadede mercado. E o nosso Estado continua eliminando esses inimigos, eproduzindo inimigos e trabalhando com a lógica do medo. É isso queprecisamos superar. Este Parlamento tem um papel fundamental como teveno enfrentamento das milícias e continua tendo uma posição fundamentalna cobrança desse Governo de uma política de Segurança Pública, quenão seja calcada na intolerância, no preconceito e na violência. OEstado não pode disputar com o crime quem é mais violento, maisbárbaro, mais brutal. O Estado tem outro papel, e que não é o que seráescrito apenas pela Polícia.(...) de todos os países que visitei, a Itália foi o lugar onde maisfacilmente fomos compreendidos, por razões óbvias. Quando começamos afalar do funcionamento das milícias, na metade da frase, qualquer um,da imprensa ao governo italiano, diziam: isso é máfia. Não precisacontinuar falando, isso é máfia, todas as características da máfia.Esta Casa deu início ao enfrentamento de uma máfia, porque chamamos demilícia equivocadamente, foi o nome dado pela imprensa e que não maisvamos tirar. Mas se trata de máfia. O que fizemos foi iniciar umprocesso de enfrentamento, que está longe de ser o final. As milíciasse organizam para retomarem ano que vem, o espaço perdido na batalhaque travamos aqui dentro. Nós temos responsabilidade pelo que jáiniciamos.Hoje, esse é um assunto discutido em boa parte do mundo. E boa partedo mundo tem o olhar sobre o Rio de Janeiro. E esse olhar para o Riode Janeiro não pode ser apenas, (...), o de um bom lugar para os JogosOlímpicos. Aqui tem que ser um bom lugar para se viver. É isso que agente espera.

Marcelo Freixo

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Que cidade queremos?

Na última sexta-feira, dia 25, Sérgio Ferreira Pinto Junior manteve Ana Cristina Garrido como sua refém em uma esquina do bairro de Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro. Sérgio tomou Ana Cristina como refém após tentar roubar um carro na mesma rua onde, por quarenta minutos e tendo uma granada nas mãos, a manteve rendida. O final trágico da curta história que envolveu Sérgio, Ana Cristina e mais 50 policiais militares é conhecido por todos. Um atirador de elite da PM disparou contra o assaltante um tiro certeiro, atingindo-o na cabeça e libertando imediatamente a refém.A imagem de Sérgio sendo atingido na cabeça foi amplamente reproduzida na televisão, em jornais impressos e, claro, na internet. Foi noticiado ainda que, após o disparo e a libertação de Ana Cristina, as pessoas que acompanhavam as negociações na rua aplaudiram o desfecho da história. A operação foi considerada um exemplo de sucesso pelos cidadãos que ali estavam, sem dúvida, aliviados com a libertação da refém. Mas também pelo governador do Estado, que no dia seguinte exaltou o comando da polícia carioca, o secretário de segurança pública e definiu a ação como “a antítese do 174”, referindo-se ao sequestro do ônibus da linha 174 que ocorreu há 9 anos. Na ocasião, o final foi bem diferente, uma das reféns morreu, assim como o sequestrador. Para o governador, a antítese daquele desfecho, ou seja, o contrário da tragédia toma forma na história de Sérgio e Ana Cristina, onde tudo acaba com um tiro na cabeça do assaltante. Não cabe aqui julgar se a ação da polícia no dia 25 foi correta ou não, este não seria o espaço para uma avaliação como essa. No entanto, os fatos que ocorreram em Vila Isabel podem servir para que os cidadãos cariocas se questionem sobre qual é a cidade que desejam e como essa cidade pode ser construída. A cidade que queremos é a cidade que aplaude a morte de um jovem de 24 anos, sem pensar na dor da família e sem saber quem era esse jovem? A cidade que desejamos vai ser construída com atiradores de elite em cada janela e com uma polícia que tem a letalidade como indicador de eficiência? Ou ainda, queremos passar os nossos dias assistindo à trágica cena que certamente não sairá de nossas mentes do boné que cai atrasado por inércia após um disparo que atinge a cabeça de um cidadão? Ou o que desejamos é nem lembrar que Sérgio era um cidadão? Se as respostas a essas questões forem afirmativas, parece que estamos no caminho certo e o desfecho do assalto de Vila Isabel é ilustrativo.No entanto, estes, certamente, não são os desejos dos cidadãos cariocas. Não é difícil constatar como são muitos aqueles que acreditam que a vida humana é mais importante que o combate ao crime. A morte de Sérgio e os fatos que a ela se sucederam demonstram que a luta pela valorização da vida e por uma política de segurança cidadã são mais do que atuais. Pois não há sociedade pacificada onde segurança pública se faz com base na letalidade. Do contrário, acabamos por perder sempre, para usar da infeliz metáfora do coronel Fernando Príncipe, comandante do batalhão da PM da Tijuca que, ao final da operação, questionado sobre o sucesso da ação da PM, afirmou que felizmente o desfecho do assalto em Vila Isabel foi diferente do ocorrido no ônibus 174, sequestro no qual ele também estava presente. “O policial errou o tiro. (...) Sandro acabou atirando e matando a refém. O Brasil não perdeu uma Copa do Mundo porque o Zico chutou um pênalti para fora? O policial atirou e errou. Perdemos”, afirmou ele. O que parece, no entanto, é que estamos perdendo seguidamente. Perdemos vidas. Perdemos a chance de fazer desta cidade um lugar de justiça e utopias.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Bancos: Quem são os ladrões? Os que os assaltam ou os que os fundam?


A notícia é de 24 de julho. Relatório da ONU tornava público um dado estarrecedor. Por conta da intervenção dos governos das principais potências capitalistas, visando cobrir os rombos que o sistema financeiro mundial gerara por sua própria ação criminosa na busca insaciável do lucro especulativo, os banqueiros de todo o mundo teriam recebido, em um ano, quase vinte vezes mais do que os países pobres nos últimos 50 anos. Isso mesmo; US$ 18 trilhões originados dos tributos dos cidadãos foram desviados para o bolso da grande agiotagem capitalista, em apenas um ano. Enquanto aos países pobres, espoliados em suas riquezas naturais; rapinados por juros extorsivos provenientes de dívidas ilegalmente produzidas; expropriados de seus parcos parques de empresas públicas estratégicas por conta da década da privatização "modernizadora" imposta pelo Consenso de Washington, eram destinados míseros US$ 2 trilhões, ao longo dos últimos 50 anos. Quantia, certamente muito inferior ao que lhes foi surrupiado com a anuência de "elites" políticas e econômicas, subalternas e corrompidas.
Pois bem; mal o escandaloso paradoxo começava a esfriar nas manchetes, outra pérola do caráter essencialmente predatório do capitalismo vem a público. Ao longo da crise que teria justificado a intervenção estatal promotora da transferência da montanha de recursos públicos para as mãos da bandidagem financeira, os principais porta-vozes do "mercado" globalizado - o New York Times e o Wall Street Journal - anunciam em manchete na abertura de agosto que os grandes bancos pagaram bônus de bilhões de dólares a corretores e banqueiros, em meio à crise de Wall Street. Ou seja, enquanto mamavam nas tetas de seus Tesouros, para compensar o que teriam perdido nas especulações criminosas a que se entregaram, essas verdadeiras entidades do crime organizado premiaram cerca de cinco mil executivos com comissões mínimas de US$ 1 milhão, segundo manchetes do NYT.
O WS Journal chega a detalhes na denúncia da bandalheira organizada por nove das maiores entre elas; todas bem conhecidas nossas, pela deferência e respeito com que os governos FHC e Lula, acompanhados dos colunistas chapas-brancas dos principais jornalões de nossas plagas, sempre as trataram. Para não cansar nossos leitores com cifras em excesso, vamos reproduzir os dados sobre apenas três mais expressivas.
Começamos pelo mais "modesto", o Citigroup: 124 de seus executivos receberam mais de US$ 3 milhões. 176 receberam mais de US$ 2 milhões e 738 "infelizes" se viram limitados a US$ 1 milhão. Vem depois o JP Morgan Chase. 200 receberam mais de US$ 3 milhões e 1626 receberam entre US$ 1 e 3 milhões. Por fim, apenas para citar os três mais, vem o indefectível dos noticiários diários, o Goldman Sachs. Nele, 212 receberam mais de US$ 3 milhões; 189 receberam mais de US$ 2 milhões e 428 "prejudicados" tiveram que se contentar com parcos US$ 1 milhão, por um ano de "assassinato financeiro".
É bom que isto tenha vindo a público, para que se compreenda o quanto de absolutamente condenável existiu nas medidas capitaneadas pelos governos Obama e Gordon Brown na "superação da crise". O quanto terá sido contrabandeado para os bolsos dos banqueiros mais representativos do sistema a partir do que foi roubado das necessidades de saúde, educação, transportes e infra-estrutura públicas em todo o mundo. É bom que isto tenha vindo a público, para comprovar quão abastardado está o governo Lula, a partir do ôba-ôba que produziu por conta dos US$ 10 bilhões que o Brasil teria "emprestado" ao famigerado FMI.
02/08/2009
Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos